Abr 19

COMER COM PRAZER

Comer com prazer é o critério que mais comummente utilizado para escolher os alimentos. 

O prazer sensorial da comida é o número 1 no topo das opções alimentares e que nos leva a perpetuar, muitas vezes, hábitos pouco salutares, mas muito prazerosos. Com esta afirmação levo-vos a pensar que talvez não seja possível conciliar uma alimentação saudável, com prazer em comer. É possível sim, conciliarmos as duas. Eu sou um exemplo disso.

São várias as premissas a considerar na obtenção de prazer com a comida. Existem muitas variáveis que condicionam a nossa percepção e a sensação de prazer.

A nossa língua tem inúmeras papilas gustativas que são células responsáveis por identificar o sabor dos alimentos que estamos comendo. O doce, o salgado, o acido, o amargo e o picante, os 5 sabores (se bem que haja quem tenha identificado um outro a que chamou umami, que significa em japonês delicioso ou guloso) que nós todos identificamos facilmente. 

O sabor é de facto um factor importante o prazer em comer, mas a composição do alimento também o é.  Vejamos o exemplo do chocolate, um dos alimentos que está na lista de muitas pessoas como prazeroso. Este alimento ajuda a produzir serotonina (a hormona do prazer e bem-estar) a partir do triptofano presente na sua composição. 

Como vimos, o sabor e a composição podem ser determinantes no comer com prazer, mas será só isso?

Na minha opinião, não. Existem mais condicionantes como os nossos 5 sentidos e a ligação emocional que temos a determinadas comidas.

Os 5 sentidos desempenham um papel crucial na nossa apreciação da comida, o cheiro, a textura, o som que faz (se é estaladiço ou cremoso), o sabor e o aspecto. Imagine algo que lhe dá imenso prazer comer, mas que não está com a textura certa, nem com o aspecto que costuma ter. A sensação de prazer não será a mesma com certeza.

A experiência prévia com o alimento também tem de ser tomada em consideração. Se o determinado alimento nos recorda algum episódio triste, quase sempre evitamos comer esse alimento, mesmo que seja chocolate e desperte os nossos sentidos por conter substâncias que influenciam directamente a produção serotonina.

O prazer em comer também é muitas vezes confundido com exagero em comer ou com o vício de comer. Penso que esta imagem está tão enraizada em nós, o prazer de comer com o exagero, que a maioria das pessoas acha impossível ter uma alimentação consciente, natural, saudável e comer com prazer. O que não é de todo verdadeiro.

O comer com prazer é algo concedido a todos os seres humanos, sem distinção desde que nascemos e considero que é uma parte da saúde. Isso significa que todos temos com a capacidade de vivenciar sensações prazerosas por intermédio da comida, o que acontece desde que somos amamentados e por esse motivo, ainda em adultos o leite é um alimento de conforto.

Actualmente existe também a ideia que comer com prazer está associado à falta de disciplina ou à insuficiente vontade para alcançar determinado objectivo, normalmente relacionado com o peso. Esta ideia está mais divulgada entre aqueles que fazem dietas restritivas, para quem a ideia de que para não ganhar peso a única saída é a privação. É obvio que exagero e gula são comportamentos que se devem evitar. Mas não existe qualquer problema em comer e saborear cada pedaço ou até mesmo comer tendo em atenção o prazer sensorial. A questão é a frequência e a quantidade de alimentos menos saudáveis que nos oferecem esse prazer sensorial.

Numa alimentação consciente e natural, como eu preconizo, tudo é permitido, no entanto a frequência e a quantidade do que se ingere é diferente do que se pratica. O caminho é ter uma alimentação consciente e natural, que esteja adaptada ao seu estilo de vida, à sua condição física e ao local onde vive.

Todos os alimentos podem ser bons (depende sempre da nossa condição física) e não existem alimentos milagrosos, com efeitos mágicos. Comer com prazer não é comer tudo. Nem comer de forma descontrolada e sem critério. Comer com prazer é ser capaz de reeducar o paladar e conseguir apreciar todos tipos de alimentos (não apenas os que contem gordura, sal e açúcar, mas comummente descritos como prazerosos). É comer de uma forma equilibrada e variada.

Comer com prazer é ter prazer em viver. Há quem diga que quem tem apetite pela comida, tem apetite pela vida. O mesmo se aplica com o prazer.

Assim se conseguirmos tirar proveito e prazer dos alimentos que ingerimos, a nossa vida será com certeza muito mais rica. 

A missão é comer com prazer e ter uma alimentação consciente e natural. Dessa forma conseguimos mais saúde e vitalidade para o nosso corpo, sem comprometer os prazeres da vida.

A mim coisas que me dão prazer e que me fazem desfrutar ainda mais da minha refeição são:

  • Ir ao mercado comprar os meus alimentos. Eu gosto de ver, tocar, cheirar o que compro. Isso inspira-me e ajuda a ser criativa na cozinha.
  • Comer local, sazonal e biológico. Além de os alimentos terem mais nutrientes e sabor, evita a ingestão de produtos agro-tóxicos que são nefastos para a nossa saúde.
  • Resgate receitas e sabores da infância. Trazem sempre sensações boas e recordações prazerosas.
  • Utilize ingredientes novos, novas formas de apresentação, ponha a mesa bonita (mesmo que seja só para si) … mime-se.
  • Sempre que possível, cozinhe. Comer e cozinhar são uma forma de se amar.
  • A hora das refeições deve ser sagrada. Coma sentada, com atenção plena. Mesmo que seja sozinha.

Eu costumo dizer que comer é o acto mais íntimo que temos connosco mesmo. Tudo o que comemos irá fundir-se em nós, irá fazer parte de nós. Como momento íntimo que é, é bom que seja prazeroso.

Eu adoro comer, adoro todo o processo desde o mercado até ao prato. Delicio-me com os aromas, as texturas, os sabores e gosto muito de inventar.  Para mim comer com prazer é mais do que ter prazer sensorial. A comida tem de estar apetitosa, gulosa, mas tem que simultaneamente contribuir para o equilíbrio dos meus corpos: físico, mental, emocional e espiritual. 

Deixo aqui uma receita bem gulosa, para mim, claro!

Só de pensar nela começo a saborear.

 

CROCANTE DE TOFU COM SÉSAMO

Um dos pratos que a minha avó Fernanda fazia, sempre que eu pedia, eram os panados. Confesso que há muito tempo que não como uns panadinhos feitos pela minha avó, pois deixei de comer carne há mais de 15 anos. Mas, esta é uma textura que me agrada muito, pelo que resolvi fazer a minha versão de panados, desta feita com tofu e o sésamo para ficar bem crocante!

Ingredientes:

  • 500 g de tofu
  • Shoyu q.b. 
  • Azeite q.b.
  • Pão ralado q.b.
  • Sementes de sésamo q.b
  • Ervas aromáticas secas
  • Farinha de espelta (ou outra)
  • 1 pitada de sal
  • Água com gás
  • Limão às rodelas

Corte o tofu em fatias, coloque-as num tabuleiro e tempere-as, de ambos os lados, com Shoyu e deixe a marinar um pouco.

Num recipiente prepare um polme fino, mas cremoso, com um pouco de farinha, uma pitada de sal e a água das pedras.

Noutro recipiente, misture as sementes de sésamo, com o pão ralado e ervas aromáticas.

Passe cada fatia de tofu pelo polme e em seguida passe-o pela mistura de pão ralado com sésamo.

Frite em azeite e sirva com limão, e com o acompanhamento que lhe agradar.

Bom Proveito!

Daniela Ricardo