Mai 31

WEI WUWEI – O MOVIMENTO NATURAL

A arte realizar sem agir.

Enquanto lê esta frase, inspirou e expirou no tempo de chegar ao ponto. Conteve a respiração ao tomar consciência disso? O seu coração pulsou dez vezes até aqui. Biliões de sinapses dispararam para conectar uma porção dos seus neurónios numa sinfonia única que lhe permite entender estes gatafunhos, convertê-los voz mental entoada numa melodia e extrair daí um significado. Uma porção considerável do seu sangue foi já filtrado pelos seus rins, atravessando mais de um milhão dos seus néfrons e começando lentamente a encher a sua bexiga. Milhões das suas células sucumbiram desde o início deste texto, enquanto milhões de outras nasceram. As moribundas dão literalmente, o corpo ao manifesto, sendo sujeitas ao processo de reciclagem que extraí os úteis aminoácidos para reconstruir continuamente o corpo que ininterruptamente se desfaz

Neste momento respira e o natural, é não realizar absolutamente nenhum esforço para tal. Pode até, esquecer a respiração e esta prossegue, naturalmente sem necessidade da sua interferência. Isso é wei wuwei, a arte realizar sem agir e toda a pequena ou grande Natureza entoa-se sobre o silêncio do wei wuwei.

Wei wuwei (为无为 Wéi Wúwéi) é um aspeto central da filosofia Daoista. Vem associado à natureza dócil e fluída da água que é sem forma. O bambu que é flexível, oco e resistente. Associado ao caminho pela via da natureza. Atuando como um rio que flui ou um lago que permanece. Um planeta que rodopia e viaja pelo espaço, orbitando sem esforço e assim persistindo por um imenso tempo.

O ideograma wu (无) pode ser traduzido como “sem / não / nada / vazio / desprovido”. O ideograma wei (为) como “fazer / formar / esforço / agir / controlar”. Wuwei transporta a ideia de inação, do não-agir, do vazio da forma e do não forçar. E wei wuwei a capacidade de realizar não controlando, de atuar não interferindo ou pelo menor esforço possível a uma máxima eficácia.

Considera que os ignorantes se precipitam e os tolos querem fazer tudo, quando poderiam ao invés beneficiar e beneficiarem-se, sendo mais sossegados. O comum faz questões como “E se fizer isto? e se fizer aquilo? Como realizar mais? Alguém ou eu tenho de fazer alguma coisa.” mergulhando em esforços e ações com desfechos muitas vezes indesejados, devido à ânsia de querer controlar. Mas o caminho natural apela a que façamos questões como “E se não fizer isto? e se não fizer aquilo? Como realizar melhor?” apela-nos a que nos sintonizemos para beneficiar dos ciclos e do curso natural dos fenómenos.

Wei wuwei é uma arte que requer uma extrema habilidade, pois representa a quinta-essência de uma realização. Uma realização exímia que deverá brotar de forma tão natural e espontânea como respirar. Não é possível perseguir diretamente o não-fazer, este deve ocorrer naturalmente em resultado do cultivar de uma habilidade, que é naturalmente instruída pelo Tao (道,Dao), o caminho natural. Aquele que segue o Tao (um taoista), é aquele que caminha por vias naturais em harmonia com os cursos da natureza. Taoista poderá ser traduzido de forma mais literal e poética como um peregrino da natureza, um peregrino do cosmos que coloca a cada passo a firme intenção de se sintonizar com o universo, o caminho natural.

A ideia presente é a de realizar uma ação sem lutar, o esforço é mínimo ou inexistente. Esta ideia de realizar sem controlar faz parte de várias artes marciais tais como o tai chi (太极拳,Taijiquan). Sendo presente nos artistas extraordinários, num surfista veterano e em todos aqueles instantes em que “desistimos” de toda a realização, para a deixar manifestar-se movida por um fluxo tão natural e sem esforço, como deverá ser o respirar. Controlar ou dominar é contraproducente, a ação ou inação alinhada vem de um (re)agir ou deixar ir, que é espontâneo, natural e conciliado a cada momento.

As ondas impermanentes e os fenómenos da incerteza, são para navegar não para controlar. O wei wuwei, apela a um alinhamento para relacionar, e não tanto a um controlo para dominar.

Tanto a ação como a inação podem gerar um efeito benéfico ou prejudicial. Ciente disto o sábio atua observando atentamente, saboreando com cautela e atuando com a máxima eficácia, pela mínima ação e esforço. Tem bem presente, que o instante e o aparente, são breves ondas num vasto e profundo horizonte que deverá ser sempre observado, respeitado e bem navegado. Concilia-se sabendo quando e como agir, porém a sua grande arte e destreza está na capacidade de não agir em vão ou forçando. Move—se com a força e sintoniza-se com esta, porém não força nem esforça. Em caso de inquietação, procura a quietude e no momento certo atua de forma simples, com o suficiente e o necessário. A este movimento dá-se o nome de natural, pois alinha-se ao movimento da natureza que é simples, necessário e suficiente. As ondas impermanentes e os fenómenos da incerteza, são para navegar não para controlar. O wei wuwei, apela a um alinhamento para relacionar, e não tanto a um controlo para dominar.

Quantas vezes por agir complica-se ainda mais? Não-agir pode revelar-se tão ou mais eficaz que o agir.

Quantas vezes o ímpeto gera apenas confusão e dívidas? Saber atuar é uma arte e transformar o impulso pode gerar ganhos e clareza.

Quantas vezes por ocupar mais o tempo e espaço. com inutilidades, aumenta apenas a ansiedade, os apegos e a depressão? Certos acrescentos apenas subtraem e destralhar o que não é essencial. dá força ao florir.

Quantas vezes querendo ajudar realizámos algo destrutivo para nós e/ou para outros? Saber não atrapalhar é uma arte que auxilia.

Em geral, todos sabemos que por vezes é preferível não dizer nada. Aguardar um momento e contexto mais conveniente a uma ação. Ou relaxar a olhar o céu enquanto o semáforo não fica verde. Em todos estes instantes, estamos a seguir wei wuwei.

Laozi faz abudantes referências no popular Tao Te Ching (道德經, Dàodé jīng) o “Livro do Caminho e da Virtude”). O mesmo conceito é abundante em contos do budismo Zen e do sufismo.

“Permanecer em quietude, sendo hábil no não-fazer. A primavera chega e a erva cresce.”

~provérbio zen

No filme Guerra das Estrelas: O Império Contra-ataca, o Mestre Yoda sublinha a importância de realizar uma ação ou não-ação, de forma determinante.

Por várias vezes, na ânsia de realizar e por disparar em várias direções acabamos por cometer vários estragos. Sendo que o melhor curso de ação por vezes passa por sossegar e aguardar as condições ideais ou mínimas. Devemos continuamente estar atentos, se o nosso fazer não irá apenas contribuir para algo pior. “É melhor do que não fazer nada” é uma crença popular extremamente perigosa e que demasiadas vezes realiza abundantes danos. Atuar com esforço e atritos constantes, costumam revelar-se como sinais de que seguimos cursos não naturais. “Contra os canhões marchar, marchar”, por muito belo que seja numa descrição epopeica é simplesmente, pouco natural.

Seguir o wei wuwei é ser como a água perante os confrontos, avançamos ou esperamos, com adaptabilidade e uma habilidade resoluta, no sentido de resolver ou dissolver todo e qualquer conflito, externo ou interno.

Do cimo de uma montanha a água brota de uma fonte. O seu destino, o mar, encontra-se a cinquenta quilómetros a direito. Seguir a direito que implicaria forçar caminho, abrindo e destruindo o que se atravessasse pelo meio. Ao invés, a água serpenteia por centenas a milhares de quilómetros, naturalmente e sem esforço, em direção ao oceano. Se vive lutando e em esforço constante para sobreviver, é possível que esteja desalinhado. Se for o caso, considere outras formas e outros meios.

O Fukuoka, foi um agricultor japonês que se tornou célebre pelo seu livro e manifesto “A revolução de uma palha”. Tendo florescido jardins em desertos entre outras façanhas várias, entre sonecas boas que gostava de realizar.

“A não ser que as pessoas se tornem pessoas naturais, não pode haver nem agricultura natural nem comida natural.”

~Masanobu Fukuoka

Entramos num novo ano e com este surgem as habituais resoluções. Permita-se a algo diferente e faça uma lista sobre o que é que vai não-fazer para alcançar uma vida melhor. Isso é wei wuwei.

Vasco Daniel