Jun 28

EMOÇÕES E REACÇÕES

A mudança para percorrer o nosso caminho às vezes assusta..

As sementes de quem somos hoje em dia, foram plantadas na nossa infância.

A maioria das pessoas não têm memórias cognitivas do primeiro septénio, que é na realidade a altura em que são construídas as fundações, os alicerces da nossa casa interna. Não é preciso ter memória, pois está tudo gravado no nosso corpo, de forma inconsciente, e movemo-nos e agimos na vida com padrões automáticos que foram adquiridos como as melhores respostas que a nossa criança encontrou na altura por segurar a necessidade primária : a de ser ACEITE e AMADA.

Esses padrões de reacção são levados de forma automática para a nossa fase adulta e são reflectidos nas nossas relações, pela forma como educamos, pela forma como nos vemos quando olhamos para nós próprios e os outros, o mundo… Às vezes são saudáveis, outras vezes nem por isso e impedem que possamos acreditar em nós, acreditar que merecemos ser aceites e amados para aquilo que realmente somos!

A mudança para percorrer esse caminho às vezes assusta. E quando algo nos assusta a tendência é entrar na defesa e combatê-lo. Quando estamos tristes procuramos como eliminar a tristeza. Quando estamos assustados procuramos anular o medo. Quando algo que ouvimos ou nos é dito mexe cá dentro, procuramos razões que o ponham em causa para não lhe dar ouvidos, seguimento. Para o afastar de nós. Quando há uma mudança nas nossas vidas, procuramos voltar ao que nos era familiar, a “normalidade” a todo o custo.

Às vezes estamos tão distraídos que não nos apercebemos que ao combater as nossas próprias emoções estamos em guerra contra nós próprios, contra a nossa essência que quer vir ao de cima, custe o que custar. Ela quer Ser.

Se algo que ouviste, que te aconteceu, mexe contigo, cria desconforto interno, fica curioso com o que por aí vai antes de o mandar embora ou
fingir que não está a acontecer. Se recusamos algo novo, uma posição diferente da habitual, estamos a desistir da possibilidade de nos enriquecer com algo que nunca experimentamos, ficamos agarrados ao passado e desistimos de crescer, de nos ouvir, de nos conhecer, de nos experimentar. Desde o nascimento, a parte do nosso cérebro mais primitiva salvaguarda a nossa sobrevivência através de uma primeira reacção de luta ou fuga frente ao perigo, ou melhor frente a algo que nós percepcionamos como perigo. Essa função primitiva, ajuda a mantermo-nos fisicamente vivos, mas se não temos consciência dela, acaba por travar, impedir a nossa evolução. A alternativa de lutar contra ou fugir é ficar curiosos, permitir conhecer,
permitir ficar.

O Joseph Campell escreveu:

“A caverna que você tem medo de entrar, guarda o tesouro que procura”

Às vezes é desconfortável tomar consciência das emoções mais dolorosas, mas é só vivenciando-as, escutando-as, abraçando-as, ficando com elas é
que nos permite conhecermo-nos, entender o que está por trás e agir de forma diferente e mais autêntica. Nós não somos educados dessa forma. Quando uma criança está triste normalmente os adultos que estão a volta dela fazem de tudo para a tirar dessa tristeza: distraem-na com
outra coisa qualquer (muitas vezes comida com açúcar…, mas esse já é outro tema), tentam fazê-la rir com cocegas ou caretas. Quando uma criança está com medo (por exemplo de ir a escola, de dormir sozinha, do escuro, que ninguém queira brincar com ela…) normalmente esse medo é desprezado, diminuído ou até ridicularizado. Para não falar da raiva…que nem sequer pode bater à porta!
Temos que sair da zona de conforto para abraçar novos caminhos, para descobrir os tesouros escondidos em cada um de nós.
Precisamos de aprender a sentir, a permitirmo-nos sentir. A confiar nas nossas emoções, pois elas acontecem por uma razão e é na “caverna” da vivência dessas emoções é que acontecem as melhores descobertas sobre nós próprios…

Às vezes os outros nos desafiam, dizem ou fazem algo que desperta logo uma emoção incomoda. Precisamos de nos aproximar dessa sensação, desse sentir com curiosidade, para ganhar uma nova perspectiva, para vermos as situações com umas novas lentes, que não podem ser sempre as mesmas. Essa curiosidade saudável é o que nos leva a uma flexibilidade, a uma amplitude mental, à compaixão, ao entendimento do que está por trás da nossa primeira habitual reacção.

Quando “esses outros” são os nossos filhos, ou crianças em geral, a responsabilidade ainda é acrescida, pois somos nós adultos, os cuidadores que devemos desenvolver a capacidade de gerir, regular as nossas emoções, sem ficarmos inconscientemente escravos delas. Eles não têm desenvolvimento cerebral e do sistema nervoso necessários para que isso aconteça. Eles aprendem através de nós. Através do exemplo. Estão a aprender connosco a inteligência emocional, uma ferramenta indispensável nos dias de hoje e de amanhã. Quando digo “regular” ou “gerir” as emoções não quero de todos dizer “controlar”, pois as emoções não se controlam, porque são algo que nasce no nosso corpo e há uma sabedoria nelas. Nós “só” temos que aprender a aceitá-las e dar-lhes o tempo necessário para que façam o trabalho indispensável que têm a fazer.

Será que ainda estamos à procura de ser ACEITES e AMADOS?
Será que não estamos a permitir-nos viver a nossa própria verdade, a trazer cá para fora a mensagem que nos chega através das emoções com medo de sermos REJEITADOS, ABANDONADOS? Se assim for, lamento dizer que os primeiros a abandonar-nos ou a rejeitarmo-nos, somos nós próprios…!

Abracem a vossa verdade, deixem que a vossa essência possa vir ao de cima.

Vocês merecem. O mundo precisa. Os vossos filhos precisam

Marzia Carré